Rosalind Franklin e a descoberta do modelo de DNA.

Entenda como Rosalind Franklin foi uma mulher negligenciada na história da ciência.

2020
Postado: 13 de fevereiro, 2020
Rosalind Franklin

Até os dias atuais, muitas mulheres são menosprezadas em seus respectivos trabalhos, ganhando menos, não sendo ouvidas e muitas vezes sem levar crédito pelo que fizeram. Na história da ciência, existem diversas mulheres que não tiveram seu nome mencionado em trabalhos, pesquisas e descobertas, sendo desde a antiguidade completamente desvalorizadas. Uma delas foi Rosalind Franklin, e já passou da hora de contar a sua história.

Quem foi Rosalind Franklin?

Rosalind Elsie Franklin nasceu em Londres em 1920. Ela estudou em uma escola para garotas em Londres que ensinava física e química. Rosalind queria ser cientista desde que era uma adolescente, e teve essa certeza quando tinha 15 anos. Tal carreira que não era fácil ou comum para as garotas nessa época. Entretanto, ela foi a fundo mesmo assim e nada a impediu de ir atrás do seu sonho. Franklin ganhou uma bolsa para faculdade de Cambridge para estudar química, onde ela fez seu pós doutorado, promoveu pesquisas importantes sobre o carbono e a macroestrutura do grafite, e mais tarde conduziu sua pesquisa para estrutura do carvão que levou à melhores máscaras de gás para o Reino Unido durante a segunda guerra mundial.

Rosalind Franklin

Rosalind e o modelo de DNA:

Depois que Franklin saiu de Cambridge, passou 3 anos em Paris pesquisando técnicas de difração de raio-X. Em 1951 ela juntou-se ao King’s College para usar técnicas de Raio-X para estudar a estrutura do DNA, que nessa época era um dos assuntos mais pesquisados e falados sobre na ciência. Franklin melhorou o laboratório de Raio-x e começou seus trabalhos, iluminando raios-x de alta energia em pequenos cristais úmidos de DNA.

  • O machismo, Rosalind e Wilkins: 

A cultura acadêmica daquela época não era muito simpática com mulheres, e Franklin sofreu muito com isso, sendo diversas vezes isolada pelos seus colegas. Inclusive, foi lá que ela conheceu Maurice Wilkins, que assim como ela, liderava um grupo de pesquisa sobre o DNA. Quando Randall passou a Rosalind o seu projeto, Wilkins estava fora do laboratório, e quando retornou, pensou que ela era apenas uma assistente técnica. Em cartas reveladas, que teriam sido trocadas por Wilkins e Franklin, é evidente o desprezo que ele sentia por ela e a forma machista como ele a tratava, chegando até mesmo a chamá-la de bruxa.

  • A Photo 51: 

Mesmo com todo o machismo, Rosalind não deixou que nada a abalasse e continuou trabalhando arduamente em suas pesquisas. Até que em 1952, Franklin conseguiu a Photo 51, que é a imagem mais famosa do DNA, feita por difração do raio-X. Obter essa foto levou 100 horas e os cálculos necessários para analisá-la levaria 1 ano.

  • Watson e Crick: 

Nessa época, Wilkins e Rosalind não eram os únicos interessados no modelo de DNA, e é aí que entram dois personagens importantes para essa história, que são os famosos Watson e Crick. O biólogo americano James Watson e o físico britânico Francis Crick também estavam tentando descobrir a estrutura do DNA, entretanto, em dezembro de 1951, eles apresentaram um modelo de tripla hélice para Wilkins e Rosalind, e imediatamente Rosalind Franklin identificou os erros, e viu que a estrutura não era compatível com as difrações obtidas por ela. Dessa forma, Watson e Crick foram proibidos de trabalhar com DNA, e foi só quando Linus Pauling (um dos cientistas mais famosos na época) mostrou interesse no DNA, que eles conseguiram permissão novamente.

  • O roubo e as versões da história: 

A Photo 51, capturada por Rosalind Franklin, foi vista por Watson e Crick, sem o consentimento e até mesmo sem ela saber (e morreu sem ter nem ideia da situação). Esse roubo de fato aconteceu, mas existem duas versões dessa história:

  1. Sem a autorização e conhecimento de Franklin, Wilkins pegou a Photo 51 e mostrou para Watson e Crick. Ao invés de calcular a exata posição de cada átomo, eles fizeram uma rápida análise dos dados de Franklin e os usaram para montar potenciais estruturas. Eventualmente, eles chegaram a certa, que hoje conhecemos.
    Watson e Crick publicaram o modelo em abril de 1953. Enquanto isso, Franklin tinha terminado seus cálculos e chegado a mesma conclusão, produzindo seu próprio manuscrito, o Jornal publicou ambos manuscritos juntos, porém publicou o da Franklin por último, fazendo parecer com que a seus experimentos e descoberta fosse apenas uma confirmação do avanço de Watson e Crick, ao invés da realidade, que é que o inspirou.
  2. Franklin, possuia a Photo 51 e não conseguia chegar a uma estrutura, isso durante 9 mêses. Com isso, um aluno dela pegou a fotografia, sem sua permissão e ciência, e a mostrou para Wilkins, que logo em seguida a mostrou para Watson e Crick. Rosalind não desistiu de seus cálculos e estava quase chegando a estrutura correta, quando foi publicado em abril de 1953, o modelo de DNA de Watson e Crick, e ela simplesmente parou de pesquisar sobre.
  • Reconhecimento póstumo: 

Rosalind Franklin morreu em 1958, com 38 anos, de câncer no ovário, e muito provavelmente por ter se exposto a tanta radiação em suas pesquisas. Ela morreu sem reconhecimento e sem saber que Watson e Crick tinham visto sua fotografia. Em 1962, Watson, Crick e Wilkins ganharam o prêmio Nobel. A comunidade científica somente passou a reconhecer Rosalind, quando Watson acabou revelando em seu livro a participação dela (o que fez que muitos duvidassem do mérito dos três) e depois foram também reveladas cartas entre o trio em que eles mencionavam que sem a foto obtida por ela, eles não teriam conseguido. Em diversas entrevistas, Watson afirmou que Rosalind nunca teria conseguido sozinha, e que a ajuda deles foi essencial para a descoberta. John Finck e Aaron Klug, publicaram um arigo de investigação na revista Nature sobre ela, como homenagem.

É comumente dito que Rosalind teria ganho dois prêmios Nobel, porque ela também trabalhou na estrutura do vírus, mas no meio de sua pesquisa ela morreu, e foi continuada pelo seu colega Aaron Klug, que ganhou o Nobel em 1982.

Está na hora, mais do que na hora, já passou da hora, de contar a história de uma mulher incrível, que encarou o machismo, que nunca abaixou a cabeça, que fez descobertas importantes para a medicina, biologia, química e agricultura. Ela morreu sem ser reconhecida pelo seu trabalho, mas o mundo deve esses créditos a ela. Precisamos falar sobre Rosalind Elsie Franklin. 

´´A ciência, para mim, explica parte da vida. Até onde chega, se baseia em acontecimentos, experiência e experimentos.“

-Rosalind Franklin.

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