A morte de Tancredo e a incerteza democrática

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Decadência do Regime Militar. Abertura política. Novas eleições. Eleições indiretas no parlamento. Esse foi o cenário político brasileiro no ano de 1984. Em março de 1983, chegou até o Congresso a Ementa Dante de Oliveira, também conhecida como Ementa das Diretas Já. A proposta foi acompanhada de uma série de movimentos populares que tomaram as ruas defendendo a abertura democrática e as eleições diretas para presidente nas próximas eleições. Porém, ela foi rejeitada pelo Congresso devido à massiva presença de deputados ligados à base do governo.

Para os militares, não seria seguro deixar a população decidir logo de primeira o novo presidente da República por medo de certa retaliação contra os crimes de Estado cometidos pelas duas décadas de regime militar. Logo, a via menos perigosa seria uma eleição indireta para o executivo federal. No entanto, precisariam escolher um presidente que tivesse legitimidade do povo e da base do governo. Tancredo (PMDB) foi a melhor opção: 480 votos contra 180 de seu opositor, Maluf (PDS).

No entanto, dois dias antes de assumir a posse, Tancredo Neves passou por um problema de saúde e teve de ser internado com suspeita de apendicite. Nesse momento, o cenário político brasileiro ficou obscuro, pois o medo de haver uma contraofensiva à abertura democrática poderia partir por parte de setores mais radicais do exército e cancelarem a posse. Muito desse temor se deu pois o vice de Tancredo era José Sarney, que por sua vez já tinha sido líder do ARENA (partido da ditadura), porém rompeu relações com a base do governo por desavenças com Maluf.

O medo popular estava fundado na recusa de Figueiredo – o então presidente militar da época – de passar a faixa presidencial para Sarney. Por esse motivo, segundo relatos de familiares, Tancredo se forçou a aguentar doente até o dia da posse e cogitou operar depois, entretanto, seu caso clínico já estava grave e os médicos não aconselharam por precaução.

Um dia antes da posse, então, Tancredo entra na sala de cirurgia e é constatado que seu problema não era apendicite, mas sim Divertículo de Meckel. Enquanto repousava, Sarney participava da cerimônia de posse e o Brasil viveu um momento de tensão para acompanhar se o vice seria aceito normalmente pelos militares. Figueiredo acaba entregando a faixa, porém se recusa a estar presente no evento como uma maneira de protesto. A transição ainda não estava garantida, pois para isso, havia necessidade da recuperação de Tancredo, visto na época, como um herói da democracia nacional.

O povo brasileiro acompanhava todos os boletins médicos lançados diariamente. Entretanto, muito do que acontecia não era exposto ao público para evitar certos alvoroços. Uma série de complicações médicas em Brasília fizeram com que o presidente fosse transferido para um centro cirúrgico melhor equipado em São Paulo. Além disso, descobriu-se que o problema de Tancredo era mais grave: tumor.

Na época, novos rumores tomaram às ruas alegando que o presidente teria levado um tiro, porém nada muito fundado. A tensão popular levou muitos a acompanharem na saída do hospital e na ida desde o aeroporto o trajeto do presidente, que possuía um clamor muito grande. Entretanto, no dia 21 de abril, o comunicado de falecimento chocou o país e as ruas foram tomadas por manifestantes de luto, chorando pela morte do presidente.

Tancredo de Almeida Neves morreu simbolicamente no dia de Tiradentes, uma das figuras da causa republicana. Hoje, nos cinemas de todo o país, o filme “O Paciente” conta a história dos últimos momentos do presidente e tem uma ótima leitura do cenário político e social da época. Vale muito a pena para quem se interessa por essas perspectivas históricas.